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Por: Marco Arroyo

 Recentemente aceitei o convite para participar de uma mesa de debate sobre “Cultura do Estupro”. Não posso negar que diante do inusitado convite minha primeira reação se fez sentir na forma de dúvida: Devo ou não devo aceitar? Que poderei acrescentar ao debate?

O fato é que os organizadores do debate sabiam da minha participação como membro fundador do Fórum Permanente de Homens Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, criado na cidade de São Bernardo do Campo, em abril de 2016, logo após o covarde assassinato de Raimunda Elizabeth Alves de Lima por aquele que deveria ser seu companheiro. Percebi, então, que não tinha como recusar o convite.
Assim, terminei aceitando e encarando o convite como um grande desafio a superar, uma vez que o jovem movimento do qual faço parte não foi criado com base a qualquer teoria ou discurso previamente elaborado sobre o assunto, mas, por um profundo sentimento de vergonha e indignação que chacoalhou um punhado de homens que militam nas lutas sociais e que dispostos a romper o silêncio decidiram entrar no combate à violência contra a mulher.
Preocupado em me preparar com relativa antecedência, pensava no público, no que dizer e como dizer. Sentia-me como um estranho no ninho, inseguro, um tanto desconfiado: Quem sou eu pra falar do assunto? O quanto conheço do assunto? Qual é a moral que tenho pra me adentrar na matéria? O que posso acrescentar com minha experiência de vida e conhecimento? O fato é que não me sentia confortável, especialmente após saber que dividiria a mesa com duas mulheres militantes engajadas, desde o ventre das suas mães, nessa luta.
No dia do debate, como era de se esperar, tudo que eu havia esboçado e apontado para falar foi alterado pela fala das companheiras que me antecederam. Um orador desconfiado da sua participação só pode dar graças a Deus quando tem a oportunidade de falar por último. O exercício de ouvir permite dialogar de forma mais eficaz com o todo do assunto que está sendo tratado. Oportunidade como essa é um grande aprendizado.
Ouvindo e observando a participação do público, logo percebi que os homens e os movimentos de homens engajados na luta contra a violência à mulher ainda têm muito que aprender. Não se trata apenas do conhecimento, dados e informações acerca do assunto, nem apenas da maneira como abordar e se posicionar sobre o tema, mas, acima de tudo, de como tornar suas convicções em ações concretas que ajudem a provocar mudanças significativas na sociedade e na nossa cultura.
Na ausência dessa clareza no discurso e na ação, no diálogo com as mulheres e os movimentos de mulheres aprendemos que o ponto de partida dos homens que se engajam nessa luta é admitir e confessar nossa vergonha e indignação.
Alguma coisa começa mudar no comportamento e na vida social quando o homem passa a sentir vergonha daquilo que “outros” homens fazem. Quando podemos ver nos outros aquelas coisas que não queremos ser e/ou fazer, a esperança de mudança começa a iluminar nossos corações e mentes. Quando essa vergonha vem acompanhada de uma profunda indignação, então, é chegado o tempo de agir, quebrar o silêncio, sair da zona de conforto porque a razão e as convicções passam a exigir coerência ética, moral e política.
É bem capaz que a vergonha e a indignação não sejam suficientes para fundamentar todos os motivos e razões pelos quais os homens precisam se engajar no combate à violência contra a mulher, mas, são motivações mais do que suficiente para se somar a todas e todos aqueles que enfrentam esse desafio. O primeiro passo para iniciar uma mudança é vir somar. Essa luta é de mulheres e homens juntos. Aos poucos, no diálogo e na partilha, aprenderemos o discurso e um novo comportamento social dos homens.
As mulheres, historicamente, sempre estiveram na posição de vítimas do abuso dos homens. Estes, por sua vez, sempre estiveram na posição de dominadores e abusadores. Os homens, já na época das cavernas aprenderam a usar sua força para dominar os outros. Tornaram-se violentos praticando a guerra e submetendo os derrotados a todo tipo de escravidão e humilhação, inclusive, ao estupro como uma forma de destruir a dignidade, a identidade e a soberania de um povo. Essas práticas abusivas e desumanas tornaram-se normais, e assim foram aprendidas e ensinadas, de geração em geração, até os dias de hoje.
A cultura do estupro é uma das variantes da cultura da violência. Ensina-se a ser violento e o aprendizado da violência nos leva, inclusive, ao uso da força para impor uma tara sobre o corpo, a vontade e o desejo da mulher. Os homens que sentem vergonha e indignação rompem com a cultura da violência e do estupro quando se somam à luta das vitimadas e, também, pedem perdão. Sim, perdão; perdão pela omissão, pelo silêncio, pela conivência com essa cultura que, via de regra, começa em casa.
É tempo de novas atitudes, é tempo de novos comportamentos e pensamentos. Não é possível, em pleno século XXI, continuar compactuando com a cultura da violência. Não é possível achar natural e não se sentir indignado com os números assustadores que nos colocam entre os países mais violentos do mundo. As estatísticas mostram que no Brasil 5 mulheres são espancadas a cada 2 minutos; 11 estupro são praticados a cada 11 minutos e 1 mulher é vítima fatal de violência a cada 90 minutos. Não podemos conviver passivamente com esse quadro dramático e vergonhoso do nosso país. É necessário levantar a voz para denunciar todo ato de violência contra a mulher e exigir justiça.
Não podemos mais aceitar brincadeiras e comentários machistas e preconceituosos em roda de amigos. Não podemos continuar aceitando uma educação que reforça diferenças bobas entre meninos e meninas. Incentivar e celebrar desde pequeno a conduta de meninos pegadores e ao contrário, passar a condenar de vadia as mulheres quando vítimas de abuso sob o argumento de que elas, com sua forma de vestir procuram e convidam para a prática de abusos. É necessário educar as novas gerações para o respeito às diferenças e assim estabelecer novas relações de gênero longe de todo abuso e violência, e mais alavancado pelo amor e o respeito.
Enfim, é necessário politizar esta discussão e tomar partido: De que lado me posiciono eu?

SBC 05.07.2016